Conto de uma ano por inventar

 


Rompe mais que rasgado o coração. Estoura na minha cabeça uma guerra de petardos. Qualquer barulho é mais que o suportável. As janelas do meu quarto têm grades, cadeados grossos e correntes. Há uma prisão em mim. Sinto-me só. Não, não me sinto. Estou só. Lá fora tudo igual. Esquinas petrificadas com seres sem rosto que se movem apenas numa direcção, a mesma que me fez chegar aqui a este quarto, onde só quero que passem os dias, e seja incendiada a réstia de fé férrea que me resta, depositada não sei em que parte de mim. Antecedem-se respostas ás questões. Similar esta forjada esperança desesperançada. A praça está salpicada de gente incolor e sem expressão facial. Os casais arrulham-se em discussões de sentido inverso, promovendo o anti-dialogo de quem já não se suporta. A música impede a comunicação e exalta os corpos dançantes embriagados e alucinados. Birrento tento transmitir do que se vive. Tento entediado falar de vida. Não sou visto nem ouvido. Sinto-me transparente. Não sou socialmente presente. Cada vez mais sou menos, social. Existe aquela pessoa que me ouve sem falar. Que me vê sem lá estar. Que me quer, sem me ter. Existe um querer mais que vontade, e uma vontade de querer insubmissa mas ausente. Eu existo. Existe vida para além deste quarto…. Nascido num renascido corpo de alma vigente e glorificada, a seis de Dezembro de um ano por inventar.

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