Conto de uma marcha de vida
Outrora era um homem cheio de vida pleno de convicções onde o importante era ser genuíno e ser dono de atitudes irrepreensíveis. A vida dera-lhe muito trabalho. Dera-lhe o trabalho que o entretinha e o tornara sabedor do que fazia. Era detentor dos segredos e da magia de uma peça única e soprada de vida, saída dos fornos com temperaturas extravagantes. Ao cair da noite, depois de uma árdua jornada, amava a terra e cuidava dos frutos que dela colhia. A sua horta era um pedaço de terra confidente e confiável. Ouvia-o em desabafadas confissões, acerca das desigualdades que lhe enchiam a alma. Nalguns dias feitos de noite, pescava na porção de mar que apelidava de seu. Era próximo e percorrido de pedaladas fortes e vigorosas, pelos pinhais da sua casa ate ao mar, e do mar até à sua casa. Via em São Pedro o rio desaguar no mar, sem senti-lo realmente e verdadeiramente, desaguado. Rio percorrido entre um pinhal denso de historias até a exaustão. Rio feito de segredos e de pinhal verde de sindicalistas vidreiros, reunidos em ermos da noite, numa esperança anunciada e adiada. Era um homem alto e forte, fingindo não compreender o que entendia na sua pele sentida e suada, de uma vida caucionada. Em cada momento seu e só seu, sonhava pela liberdade declarada nos jornais que lhe caíam anónimos na sua bancada, como que por milagre. Sabia que um dia a revolução subiria as ruas e desceria nas porções de mar e terra que possuía a retalho. Apenas o intento de o pão ser repartido igualitariamente o acalentava. Dia após dia soprava peças únicas de sonhos equitativos. Conhecia tão bem as conversas surdas que esvoaçavam nas esquinas onde não parava. Sabia que na esquina da direita se falava de quem eram, os que paravam na esquina da esquerda, e, que se sonhava aniquilar á queima-roupa os sonhos da esquina mais próxima e distante. Olhava os seus filhos todas as noites já dormindo de uma esperança que o fazia semear o dia seguinte, sabendo que a qualquer momento lhes anunciaria o que calava. Esta é um pedaço feito de uma porção de vida, de um homem crente, artesão e vidreiro, dono de uma fatia de terra e de mar, com quem desabafava os seus sonhos tornados calados de um dia por nascer. Usava uma boina preta e caminhou numa marcha que pedia pão. Chamava-se António, e faleceu depois de o dia sonhado florescer. Morreu cheio o Sr. António, o pacato e sábio vidreiro, artesão de sonhos e confidente, da Marinha Grande.
Comentários
Postar um comentário