Conto do Amor é sentir que !...
Amor é sentir que o outro nunca morrerá, disse eu. As minhas palavras não pediram licença e entraram pela porta da cozinha que dava para o quintal e estava entreaberta. Assustaste-te. Cheirava no quintal a roupa acabada de estender, que tem um cheiro diferente da estendida por apanhar. A roupa acabada de estender cheira a agua, a estendida cheira a sol. Entretanto arrefecera. Estavam agora perto de zero graus. E zero é zero. Nem é positivo, nem negativo. Era assim a minha jornada quase travada e antecipada por questões existenciais. Estava a zero. Nos quintais sobranceiros ouvia-se lenha a arder nas lareiras. A luz ténue fazia as sombras terem movimento. As sombras movem-se com o fogo. Vi o que me parecia ser uma senhora idosa num movimento autista. Para cima e repetidamente para baixo, consoante a labareda aquecia ou procurava mais um pedaço de lenha por aquecer. A agua da roupa acabada de estender e o fogo autista do movimento, estavam presentes nesta minha transfigurada análise, do que me rodeia nesta noite de praticamente zero graus. Vital, este coração que abandono ao sentir que quem se ama, nunca morrerá. Partirá de saudade mas ficará de presença, descontinuadamente, eternamente. As crianças chilreiam. Um bando de pássaros cantarola excitados. De ramo em ramo. Cada árvore tem dez mil quartos e divisões finitas de infinito. A porta da cozinha continua entreaberta. Tem vidros aos quadrados onde deixo pintado cada vontade minha, cada acreditar, cada forma de estar. Vejo-te agora sentada, distraída, remexendo o lume em movimentos suaves, elegantes, e de quem na verdade está noutro lugar, que não esse onde te vejo. Que não este onde te deixo por agora encantado.
Comentários
Postar um comentário