Conto do desaguamento

 


A paixão conheceu-me mas escondeu-se de tão encantada que se sente por detrás de um monte longínquo. Distância feita de medo que julgamos existir. Dentre as máximas e as mínimas fontes do sentir jorram, brotam e gemem de uma encosta feita de nascentes sem o saber desaguado. A água é feita de paixão. Nasce assim, sem se saber desaguada e é neste percurso revoltante e revoltado, que disfarça a paz que fecunda a mente. Vontade de secar a fonte, sem ter vontade de a secar. A paixão não é um ofício que se aprenda ou se execute bem. A ternura é um apêndice da paixão. A paixão seca por dentro, uma vil e forte descompensação. Um desequilíbrio tão forte que parece não ter mais fim ou retrocesso. A paixão viva e experimentada torna-se na espera de voltar a ser sabida e sentida. Essa corrente descontrolada nasce sem saber onde desagua. É infinitamente efémera. Sinto um mar a flutuar dentro de mim, sem cais nem amarras. Uma cidade incendiada, um tribunal sem poder decisório. Um crepúsculo faminto de ser saciado.

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