Conto do entristecimento
Conto do entristecimento. Entristeço quando as flores que rego e cuidam de mim secam. Quando o terreno arável se torna infértil. Quando o sol se espreguiça e se ergue tarde. Entristece-me quando a minha voz não é reconhecida. Mais do que reconhecida, quando é trocada, banalizada ou confundida. Questiono o conhecimento, em que o gesto e o cheiro, seriam suficientes. Entristeço-me quando o desconhecimento não adquire conhecimento numa ignorância tão certa, que me fere mais ainda por ser certa. Uma seta envenenada cravada na minha alma. Fere-me a verdade única e reconhecível do sentir dos audazes, transformada e substituída. Ferem-me imagens desconstruídas num ápice. Desiludem-me construções metafóricas mais que metafísicas. Ferem-me análises desprovidas de fundamento e conteúdo. Fere-me e questiono a máxima, do “pode alguém ser quem não é”. Entendo finalmente que sou especial, pelo ferimento e entristecimento desilusório e recorrente. A poesia alivia-me. O entristecimento põe-se ao final do dia e levanta-se como o nevoeiro.
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