Conto do índio petiz

 


De mãos dadas avançavam cúmplices na direcção da escola. Separava-os um ano de idade e outro de nascimento. Ela de cabelo entrançado, ele desabotoado, ou de botões trocados nas casas onde deviam abotoar. Iam pelo passeio como lhes recomendava a mãe todas as noites antes de os beijar adormecidos. Partia todas as manhas para mais um dia feito de fadiga e amor. Petizes de ar sério e compenetrado como gente grande. Os seus olhares cúmplices protegiam um ao outro. O pai emigrara e não voltara. Conheci-os no caminho para a escola. No recreio era o meu amigo, bem como nas contas aprendidas, e nas palavras inventadas. A passarada acompanhava e misturava-se no chilrear do intervalo das dez e quarenta e cinco. Eu era índio enquanto a maioria era cowboy. As cabanas eram a mais confortável casa que algum dia tinha experimentado. Guardava segredos e protecção. Ficava numa fazenda de grãos grossos de terra, debaixo de uma figueira velha e redonda. Era forte como nós, os índios. Crescemos e a vida levou-nos cada qual por ser caminho. Hoje no sítio da cabana existe um prédio vertical de sete andares, com dois elevadores e garagens subterrâneas. Que pena, deitaram a cabana abaixo. O pai do meu amigo do recreio desemigrou e o meu amigo tomou-lhe o lugar. A minha amiga já acasalou três vezes. Já não brinca de ar angélico e iluminado. Eu já fui e já voltei. Já parti e regressei, e agora estou por aqui.

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