Conto do Paul e da toca do lobo
É místico aquele passeio useiro e quase banal. Não o é na pesada carga que encerra. A velha igreja em ruínas, a estrada de saltos e terra, o seixo, as horas por ali passadas. As searas de milho que anualmente se semeiam, crescem e colhem. O restolho que assiste às conversas, que escuta as noites quentes de verão, demolhada de beijos. O espiar dos amantes. A fonte que não seca. O cheiro a pinhal e a eucalipto. A juventude por ali gasta, a maturidade, a entrada pela idade adentro. Retorno sempre ao mesmo local que sendo igual, é sempre diferente. Aquele pedaço de céu, de lua e a porção de estrelas são dissemelhantes. Não é visto de mais sítio nenhum do planeta. Pertence apenas ali, aquele local, entre dois montes escondidos e um rio atravessado que corre em direção serpenteado até à foz, afluente de mar. Entre o Paul e a toca do lobo cheira a peixe pescado e grelhado. Os riachos que se cruzam num desenfreado labirinto, a passarada à solta, os espargos bravios e os agriões nascem numa descompensada e bruta ordem da natureza. Os cavalos selvagens e felizes, galopam rasantes com os bandos de pássaros do sul, pousados a norte. Ficam imóveis à sua passagem. Tudo esta em ordem. Tudo é ordeiro nesta natural desordem das coisas. O nevoeiro adormece abraçado à lezíria. Enamorado fiz por ali crescimento. Passados estes anos o encanto e a harmonia estão lá, intactos. Acho que fiz por ali uma filha, adormentado. Uma filha feita à solta sem colchão nem posição. É por isso que é tão linda e de olhar doce e encantado. Foi feita em desarmonia interior. Em harmonia com a natureza, entre o Paul e a toca do lobo.
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