Conto do prefixo "de"
De cada vez que me dou ao mundo regresso ao meu casulo com uma soberba sensação de que preciso pouco mais do que de mim próprio, da minha genuinidade, conceitos e princípios. Existe prostituição, desonestidade e miséria intelectual. Existem exercícios intelectuais tão fortes que se podem mudar as estações, o mar de sítio, as arvores das montanhas. Pôr a neve na praia e a areia num pico de uma serra nevada. Pode-se até trocar o amor pelo desamor no minuto seguinte de se amar. Na verdade o que não se pode mudar é a admiração, que se tem por alguma coisa ou alguém. Perdendo-se a admiração, acabou. Já não se admira, não se ama. Não se admira, não se deseja. Não se admira, não há riso, muito menos existe choro. Não se admira não há vontade. Desadorar é deixar de admirar. É um processo doloroso e desistente, de tão raro ser. É um pensamento de impossibilidade. Impossibilidade de anavalhar ou golpear um coração pensado nosso. Impossibilidade de embalar uma noite como se fosse a ultima, mesmo sabendo das demais que a vida tem para nos oferecer. Desadorar, desadmirar, desrespeitar, descompassar, desnaturar, desnascer. Conceitos identicamente distantes com o predeterminado “de” como prefixo. É mórbido, com o sentido da vida regressado a um confortável casulo.
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