Conto do ruído do silêncio
Saboreio o ruído do silêncio. O mar em forma de baía cortada pela mãe natureza em dois montes ali colocados, separa a agitação, do sossego melancólico. Oiço dois sons. O mar mexido à entrada e o mar parado dentro da baía. Nem parecem mares do mesmo mar. Ao longe salpicado de luzes trémulas nas encostas, urge a urbe sem vida vislumbrada a esta distância. Deslumbrante este ruído feito de silencio. De quando em vez, um ritmado feixe de luz intervalado com uma buzina, dá sinais da terra para o mar. Luzes balançam-se nas ondas numa faina piscatória adivinhada. No alto donde contemplo tamanha harmonia, puxo de um bloco pequeno e vermelho e escrevinho. Escrevinho uma história de partilha que invento e desejava.
“Era uma vez um menino que habitava um corpo já grande e desenvolvido. Intelectualmente o quociente não estava de acordo com o quociente emocional. Era normal lavar os olhos com lágrimas de saudade e dedilhar canções que morriam ali depois de tocadas, sem sequer serem ouvidas e admiradas. Assim de igual modo acontecia com os poemas que fazia, e rasgava em mil pedaços ao vento. Os moinhos onde desejava habitar caíram. Apenas o movia o amor, sentido no gerúndio. O pretérito sempre fora imperfeito. Os passos outrora dados não eram reconhecidos nas marcas das suas pegadas. O vento era companhia dos seus devaneios e a terra era a mãe forte que o abraçava, quando do cimo do monte via a vida lá em baixo. O lá em baixo era um sitio que não conhecia e não entendia. Não entendia nada do que ouvira falar sobre vida. Vida dividida ou partilhada que inventava sozinho nos minutos que juntava em dez e somava mais seis. Partia o tempo à sua maneira e sonhava. Sonhava entender o tempo dentro da vida, no gerúndio. Achava poder embrulhar a vida numa caixa e oferece-la ao tempo, que não sendo seu, queimava-se-lhe o desejo de que o fosse. As mãos fortes de dedos grossos escavavam buracos onde semeava metamorfoses que mais tarde colhia. E era em mutação que descia o monte e se juntava à vida. Era assim que pintava a tela que pendurava na sua alma. De olhar perdido e parado corria para o abraço da mãe terra, e deixava-se embalar na noite gelada, com o mar traseiro revoltado, na entrada de uma baía calma e sedutora. Era assim que pintava a tela escrevinhada no seu bloco vermelho, carregado de ruído do silêncio”.
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