A noite é um lago

 


A noite é um lago.

 

Meu amor, quando eu morrer veste encarnado e vermelho no teu luto. Pede para me queimarem bem queimado. Faz as minhas cinzas voar ao vento de um morro voltado ao mar. Quando ele vier na tua direção e anunciar o seu rebentar na rocha onde estiveres, desfaz-te delas. Acena ao céu e agradece por mim a viagem.

 

Meu amor, quando eu morrer dança nessa noite ao som da música que ouvimos e gostamos. Acena à manha e bebe o café que beberíamos. Celebra-me com um poema que tenha escrito, escolhe-o. Abraça gente. Abraça as pessoas de quem sabes que gosto, por mim. Adorna-te do mais esbelto sorriso que conseguires nessa tua boca beijada de cada vez que fizemos Amor. Passeia-te pelos campos cheirosos de amoras e toca o nevoeiro pousado nas madrugadas dos prados verdes, abraçados e pungentes.

 

Meu Amor guarda umas quantas gotas de orvalho numa caixinha zincada e oferece-a a um qualquer citadino distraído com a vida, sem dizeres coisa nenhuma ou nenhuma palavra. Apanha uma flor rara e põe no peito, como um colar inventado

 

Meu amor dorme depois nos lençóis com o nosso cheiro, e, aí podes chorar um pouco de saudade, nunca de perda, porque jamais me perderás.

 

Meu Amor recebe este beijo de vento, mar, terra, nevoeiro e cinza. Eternamente.

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