Noite de fogo feito em mim
Procuro o vento num vão de escada numa noite em que disse que vinha e não apareceu. Por detrás de uma arca velha e carunchosa procuro e não o encontro. Não valerá a pena procurá-lo mais. Quando aparecer, verei as folhas assobiarem desordenadas e embaladas, por detrás das janelas embaciadas e húmidas de um escorrer de água onde desenho montes e casas e a palavra amor. O lume estala num bailado, dilacerando cada pedaço de madeira soprado. A lenha transpira. Guardo em cada labareda um segredo meu. Confidencio de cada vez que desapareci e não fui reparado. Cada não reciprocidade aos meus sinais. Confidencio guardadas traições, omissões e a desilusão do conhecimento. Confidencio o desconhecimento que me ilude. Guardo e queimo tudo, algures na dança do fogo e em cada labareda alvoraçada. Guardo olhares e desejos. Vontades, pensamentos e poesias. Escondo e pouso o meu olhar parado e enfeitiçado. A vontade de ficar ali eternamente naquela banco baixo que me amolda ao nível do fogo. Quando fico sozinho sinto o espírito santo como companhia. Ali, sou devolvido à paz e à minha própria cabeça. É como se me voltasse a habitar. Escrevo e padeço, leio e avanço. Oiço o vento ao longe a caminho. Sei que está pousado na serra e que aparecerá entretanto. Oiço sons na casa ao lado, o vizinho desce as trancas da porta e tranca-se. As folhas erguem-se e bailam juntas com o vento e as dilaceradas labaredas. É o bailado de Dezembro, feito numa noite de mim e fogo.
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