Seis de Dezembro de todos os anos
Mal acordei tinha-te abraçado. Aquele abraço, forte e anual. Apesar de confuso e baralhado, doente e assustado, não te esqueceste do renascimento a seis de Dezembro. Sei o que significa para ti e para mim. Esteve um dia choroso iluminado pela cor de cinza. Espreitei várias vezes o dia, contemplei a estrada brilhante, lavada pela chuva que lhe dava um ar encerado. De quando em vez passavam carros compostos por famílias de vidros embaciados. Foi um dia cinzento de trabalho. Revi dias de vida feliz. Outros nem tanto, mas todos sentidos do sentido que a vida tem. Dias de alegria e de tristeza. Dias dolosos e esforçados, dias enormes e dias pequenos. Dias sem mim, dias comigo. Dias desprovidos de caminho, tempo e direcção. Dias convictos mais que o contrario. Dias decididos e decisivos. Revi os amigos que mantenho e outros que nunca o foram. Revi pessoas cruzadas por mim e pelo tempo, namoradas, amantes e conhecidos. Retrospectivo, assinalei madrugadas e noites isentas de sono. Dei abrigo a momentos ansiosos de resultados sabedores pela manha do amanha. Amontoei mais um ano, outro e outro e mais este. Renascido a 6 de Dezembro em mais um ano farto de dias e horas suadas. Ano ausente e presente de pedaços de mim. Olhei dentro dos meus olhos e coração. Muitas luas e marés se afogaram encharcadas em mim de um sentir análogo e diferenciado, próximo e distante. Um dia de cada vez, vivi todas as emoções que os dias me ofertaram. A razão adequou-me e ajustou-me ás mil sensações que senti, que sinto, feitas de minutos carregados de eternidade, paixão, sonho e colo. Cabe em mim a decisão de anti-vida construída de uma vida feita de mudança. Cabe em mim no património que gerei, tão mais do que a vida. Arde em mim uma alma feita de vida. Sou esta alma que vive só por hoje, reconhecendo muitas vezes a impotência de mudar ou controlar o que quer que seja. Mais vivo que morto, vivo a dádiva que a vida me concedeu num seis de Dezembro já distanciado, mas tão presente e cristalizado em mim.
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