Desimportância

 


Desde que a vida não me passe ao lado e fique saldada a minha existência, estou em paz. Por caminhos sinuosos e planos, e por sentires meus, deixo-me ir. Desde que as marés e os ventos, os rostos e os sorrisos, as mãos e as cabeças, se me encostem no ombro, deixo-me ficar. Não me importa a distância ou o caminho a fazer. Nem a raça, a cor ou a religião. Abasta-me a simplicidade da pouca elaboração, a genuinidade, a admiração, os princípios, os conceitos, a igualdade e a cumplicidade. Prende-me e abasta-me de preenchimento e segurança, a desimportância da moda, do sítio e do país, em prol do conforto do meu coração, em prol da emoção do meu sentir. A minha vida tem sido feita de horas. Horas de chegada, horas de fugida. Horas de prisão e liberdade. Horas feitas de mim próprio e não. Ninguém sabe quem és, não sabes de ninguém. De vez enquando o engano do conhecimento habita-me. Habita-me o luar e o que existe para além do mar. Parte ao longe um barco, onde embarco o meu olhar e vou. Retiro-me sem ser ou ver. As mãos rudes e fortes cavam esta terra de caminho recomeçado mais vezes do que alguma vez acabado, mas indefinidamente percorrido. Em decrescendo, estou. Uma nova etapa me aguarda no meu regresso. Depois de vinte anos em piloto automático, um novo desafio está aí.

 

Se eu vou morrer no mar alto ó linda, eu quero ver-te na praia.

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