Grandela mais o Chiado
A calçada era fria. Fria de um esverdeado claro de musgo entre as pedras. Lembrei-me de um poema emprestado ao fado, onde as pedras da calçada choravam. Dói-me as costas e prende-me o andar. Sinto os meus músculos outrora fortes e ágeis, amofinados. Gosto de não dizer nada a ninguém e andar pela baixa a passear. Gosto das zonas misturadas de raças e mulheres de mau porte. Gosto da luz. Gosto do Chiado e das zonas fora de moda. Gosto de subir a rua do Carmo. Nunca demorei tanto tempo a subi-la como ontem. Cada passada doeu-me. Ridículo o meu andar. Fui-me sentando numas montras e portais desenhadas ali para mim. Lembrei-me, “que boa lembrança” teve o Sisa Vieira depois de ardido o Grandela e o Chiado. Pois, porque o Chiado era o Grandela, e o Grandela o Chiado. Devaneei por ali sem direcção ou destino. Estava um frio que não senti. Negociei passar na meia laranja ou não. Passei, estava deserta. A Cova da Moura estava a “bombar” dançavam nas fogueiras acesas. Atestei o carro nas bombas em frente e segui. Invejei o ritmo, os amigos, o simplesmente estar. Acho necessário a Cova da Moura, como achava necessário o Casal Ventoso. Ninguém acabou nunca, com bairro nenhum, ou trafico algum. Apenas mudam de sítio, de caras e de gentes. Os investidores são os mesmo que nos governam mais os amigos. Apenas deixam de ser frequentados por alguns que vão morrendo que são substituídos por outros que vão morrendo também, mas aos poucos. E eu ando coxo e cada dia que passa é um dia a menos.
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