Há almas que se fundem
Meço a anunciada liberdade. Em novos movimentos. Nos acordes que já dedilho. Já te peguei ao colo e toquei. Toquei sóis e mis. Uns dós e uns rés. Consegui harmonizar-me.
Ainda não cantei, mas toquei. Ainda não dancei mas dançarei. Já caminho, já me sento e deito. Mais forte que tudo é-o a mente. Sinto uma parte dilacerada de mim, invadida.
Sinto novos recomeços. Sinto o passado lidado e um futuro de continuidade. Guardarei o que é para guardar, elevando. Purgarei o que é para purgar, destruindo. Verto-me a um querer continuar a senda para que me construí. Quando tudo tive tudo joguei fora e ao nada ter, tudo tive. Por mim. Por dentre horas não dormidas e caminhos calcorreados pelos meus pés por vezes sangrados.
Um jogo é sempre um jogo. Um jogo é sempre a tentativa de enganar o outro. Chamam jogo à sedução, ás cartas, à vida. Mas um jogo é sempre um engano. A partilha desintencionada não é um jogo. A vida não é a cabra cega. O amor não é um jogo. É dádiva. É admiração. Não é desilusão. Não são palavras, retratos ou viagens. Muito menos é um sítio da moda, onde todos se encontram numa alucinação colectiva.
A vida é privada. É escolhida. É respeito. Igualdade. Democracia. Presença. Mimos. Beijos e abraços mais do que sexo. O sexo é uma vulgar forma de confusão. Sexo é despejo do nosso eu. Amor é a partilha do nosso, muito eu. É a entrega dos nossos sonhos e indecoro. É assumir num ser imperfeito o caminho da perfeição aceite por quem nos ama. Por quem nos quer na saúde, na doença, na alegria e na tristeza, sem contrato pré-nupcial acordado. É não querer trocar o mais belo pelo menos belo, o pobre pelo rico, a avareza pela calúnia, o ego pelo alter-ego. É na prisão e no hospital que se confirmam a mais nobre forma de gostar, mas também não o é.
Estágio os há em que a presença física se torna espiritual. É neste estágio que as almas se fundem. E há almas que se fundem. Fundem mesmo.
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