Pertença (s)
Pertencemos à vida. Não nos pertencemos. Pertencemos à vida, ás batalhas que ela nos oferta. Pertencemos a um deus secreto e selvagem, irreconhecível e presente. Pertencemos aos desafios. Somos pertença de um branco negro profundo. Os nossos filhos pertencem à vida e não são nossa pertença. Este sentimento de pertença, de anti-pertença, e despertença, é uma falácia emocional e cognitiva. Fechar os olhos, desenquadrar-me, confiar, são cedências transcendentais ao meu ser. Desenquadrar-me talvez não. Fechar os olhos também não. Confiar, tem dias. Por estas dificuldades intra-pessoais, entregar-me a um cirurgião sem controlar eu próprio o bisturi que me abrirá não é tarefa fácil. Confiar o seu domínio incisivo na minha coluna e esperar ao abrir os olhos estar sem dores e caminhar, não é tarefa que o lado esquerdo do meu peito aprecie. Não me restando alternativa, vou ter que me render e gozar a “pedrada” da morfinizada anestesia o mais que conseguir, resistindo ao químico administrado com a força palpebrada que me sobrar. Sr. Professor Doutor juízo olhe este espécimen raro e humano que tem nas mãos. Desejo-lhe e desejo-me, mais ainda a mim, um momento de glória. Abraço.
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