Sol debruçado
Lembro-me de um céu aberto e um sol lindo. Uma encosta cheia de sorrisos e sonhos inventados por concretizar. Recordo-me dos homens que tomavam as decisões, das crianças, das mulheres e dos idosos. Lembro-me dos rouxinóis que cantarolavam e se esquivavam aos murmúrios. Das mulheres que tinham as mãos como os homens de criarem os seus filhos e manterem o cheiro a lavado pendurado nos entendais brancos de roupa. A minha Sirla de travões afinados e os meus primeiros acordes copiados das mãos de quem já sabia usar as cordas todas da viola, tocadas pelos dedos todos. Lembro-me da morte, da vida e das oportunidades. Das noites de verão compridas e cumpridas de brincadeiras. Das estações bem delineadas como os corpos das primeiras raparigas que reparei. Dos sonhos desfeitos que fui tendo pela diferença. Da miséria que se tornou no paraíso e o inferno adulterado. Das conquistas tardias mas reais. Do querer.
Vivo com esse querer como enxurrada renovada e diária. Tenho rios feitos de veias nos meus braços, pensamentos de montanhas e um céu de pássaros ás cores, a habitar-me no peito. Tenho a Natureza como amante e o sonho como caminho. Tenho escassos amigos, uma filha e ainda um pai e uma mãe. Tenho-me a mim recordado, reinventado e progredido. Não sou igual a ontem. Esse é o alento de me saber diferente, divergente, urgente, permutável e isento, num amanhã que aguardo entusiasmado por me saber para alem de pensador, um fazedor de alcançados sonhos. Borrifou-me a chuva antes de aqui chegar. Antes o sol tinha-me queimado a pele e florido o meu sentir.
PS: Pensem no Tratado Kioto e de Helsínquia porque um dia os muros vão cair.
Comentários
Postar um comentário