04:21H
Atravessei o campo sem vivalma. Cheguei à cidade e tudo me parecia existir aqui. Passei sem direcção e rumei a casa. Sem vivalma em casa senti-me bem-vindo e cheio. Estava quentinha e cheirava. Lá fora ouço os automóveis. Ainda vim trabalhar um pouco. Estou a embalar. O tempo foge-me. Tenho muito que fazer até Outubro. Depois existe esta nova fase, que está já já aí, no meu regresso pós-operatório ao trabalho. Não passa de uma nova fase.
Hiberno-me e embrenho-me nos livros para ler e nos mails para responder. Sinto a cabeça a mil ordenando-me o trabalho, a pesquisa, os dados para tratar e as conclusões a tirar para apresentação. Gosto deste sentir alienado que me ganho, deste sentir desligado do mundo, e ligado à terra. A terra é de todos, o mundo é de quem eu quiser ou escolher que seja. Terra e mundo são coisas diferentes sendo tão iguais de parecidos. Irei subir a rua do alecrim agradecendo a ajuda disponibilizada. Irei desce-la para trabalhar, para construir o que nem sempre me apetece, para destruir as duvidas estúpidas da minha cabeça, as questões pessoais e existenciais. Gosto de questões, fazem-me avançar. As incertezas fazem-me procurar, as dúvidas fazem-me ser capaz e conseguir.
Não gosto nem acredito em verdades absolutas, inflexíveis e rígidas. Dispenso-as. Muito mais dispenso julgamentos asquerosos de sabedoria à tiracolo de café comentado, antiquada e caduca. O tempo antiquado pode ter mil anos ou um dia. Esta coisa de ser estúpido e estupidificado fascina-me. De ser grego e troiano. Ser besta e bestial.
O fascínio da minha ignorância emocional e cognitiva está no desentendimento das marés e nas cores do por do sol. Mas não desistirei, entenderei um dia os bons dias de um raio de sol. Ontem entendi as escarpas do sopé ao paraíso. Entendi o vento entardecido da noite vindoura. Entendi a música que se escapava da rocha oca cheia de mar.
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