Abraço
Madrugada afora fui descobrindo sinais. Menos do que estar atento e juntar episódios consecutivos e palavras cheias de ego, deram-me os sinais de verdade. Palavras como “eu faço”, “eu quero”, “eu gosto”, “eu posso”, desentediaram-me de uma fantasia existente apenas e só e aos meus olhos. Todo o discurso que se centra no eu, eu e eu, me afasta. Aos poucos as rotineiras afirmações afastam a minha vontade de querer saber o que nunca saberei. As díspares acções feitas de palavras, cada vez mais me fazem querer ficar em mim e comigo e no meu mundo, que afinal é tão grande por ser tão pequeno. Um mundo onde em doses pequenas existo eu e mais seis ou sete pessoas. O mundo que de pequeno, coerente e real me faz sentido. Ao meu deus fico agradecido pela presença. Ando invadido de paz e de uma vontade férrea de fazer o que tenho que fazer até Outubro. Fervilha-me na cabeça uma dissertação de ideias construídas, apenas falhadas de pôr em papel, rubricar e defender. Sinto-me bem na minha companhia. Ando entusiasmado com a nova experiência profissional e mais um desafio que aí vem. A vida afinal é ciclicamente colheita de uma sementeira. O adubo não é nunca a quebra de princípios ou conceitos e tem como regadio, paciência, vontade e fé. Hoje particularmente sinto-me presença. Sinto-me amigo. Sinto-me vulnerável de umas lágrimas que verto sem razão aparente de as jorrar. Choro e rio com a mesma naturalidade. Não sou de riso fácil e muito menos de choro. Mas ambos os sentires me habitam. Não guardo as desilusões, guardo apenas os ensinamentos que as desilusões me causam. Muito menos desejo mal, não consigo, não quero. Abraço-te hoje assim vida minha retribuída, por vezes cansada, mas recompensada. Abraço-te hoje assim, vida minha.
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