Conta!...Diz!...

 


O inquisitório interrogatório não parava já ia para mais que três horas. Já tinha desabotoado a chuva dentro de mim. Mordia a raiva nos meus lábios até ensanguentar a saliva. Sabia bem o sabor a sangue em frente aquele que me batia, sem que dor eu sentisse. Perguntas e respostas, e eu sem palavras desfolhadas. Nem uma palavra mais que um não, e, uma esperança semeada ali mesmo dentro de mim, em como tudo haveria de terminar. Admirava os olhares sangrentos da ignorância policial e cúmplice trocadas por aquela laia. Os risos, as ameaças, as seduções. Não tinha o que lhes pertencia. Estavam enganados. A única certeza era o meu corpo fraco e marcado. O meu olhar cinzento, desprendido e desimportado. Conhecia o meu desconhecimento e nada seria ali mais, que um não. Talvez saísse um não sei. Estava com dúvidas. Como poderia eu ser procurado se nem encontrado me sentia. Não era ladrão, nem roubava auto-rádios ou automóveis. Tudo bem, consumia umas substâncias ilícitas ou menos lícitas. Mas não era traficante. Porque não prendiam eles os traficantes e me estavam ali a ensanguentar a alma? Era mais fácil? Estavam a divertir-se? A eles fazia-lhes bem à bebedeira. A mim no fundo não me fazia mal. Hoje, vinte anos passados o tempo respondeu-lhes, respondeu-me. Hoje passo olhos nos olhos e desfolho pétalas de sorrisos e ergo-me. Ergo-me de um “de cima de mim”. De um ser melhor, que aqueles pançudos, ignorantes, mentecaptas.

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