Fogo e prata
Escrever é fazer-me companhia a um “eu” não vivente. É depositar num fundo branco palavras que se juntam e ajustam, num significado crescente de ideias e pensamentos novos. É dar vida a outros já moribundos, que por defeito ou excesso se escondem amedrontados de um sem sentido de vida. Sonha-se na vida. Tudo se deseja. Sonho pela vida fora com um beijo que ainda não dei. Escrever é um exercício pacífico de guerra encomendada. A guerra das palavras pelas palavras existe. Palavra é um descritivo domínio de poder chamar pelo nome a natureza pelas entrelinhas. É poder dizer que se ama, sem dizer que o amor é maior ou menor. É dizer com várias letras, que o sol se incendeia quando nasce, ou falece quando se põe. É verificar que o mundo é feito de partos nascidos, crescentes e fugazes como tudo o que é dado à existência. Pessoas, flores, arvores, nuvens, pássaros, rios, peixes, luas, ventos e madrugadas. Tudo se faz e desfaz. A alegria, a tristeza, o prazer. Os dias guardados são raros. Os dias úteis são fúteis. Fúteis de uma utilidade não conhecida ou necessária. O amor dos deuses é o amor a que correspondemos. Que deixamos desaguar e demorar-se na foz. Ninguém sabe porquê, não se sabe quando ou onde. Tudo se faz e desfaz. A paixão da palavra em desvario é sensatez. A paixão são estrelas escritas no céu a fogo e prata.
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