Gaivota

 


O espírito abriu-se de par em par. No terreiro saíam sons azuis dos blues tocados na esquina. Sons meigos e suaves. Convidativos. A rapariga do bar do lado vestia uma saia curta. Curtíssima. As pernas ganhavam formas musculadas pelos sapatos altos que lhe assentavam na medida exacta. Passava olhando para todos, sabendo eu de antemão que não via ninguém. Continuava a tocar. Embrenhado com os meus amigos nos acordes seguintes e na vez próxima em que cada um de nós se olhava, e num tom afirmativo fazia a volta que a musica levava. Volta após volta. Em cada quatro acordes voltava-se. O mar ouvia-se no intervalo do silêncio. Cheirava a cigarros e alguns hálitos a vodka. A praia de madrugada é para quem a ama. As sombras desenhavam vultos com a luz da lua trespassada. Reflectiam-se no areal que se perdia de vista e se voltava a adivinhar no farol. O pinhal chegava até nós, pelo vento adocicado de verde pinho perfumado.

 

Aos poucos e após as desistências ficaríamos sós. Falámos de passado. Dos caminhos tão diferentes que nos juntou ali. Não era possível falar do futuro. Não fazia sentido. Nenhum de nós o adivinhava, ou sequer se interessava por ele. Sabíamos da vontade louca instalada no momento. Sabíamos do descontrolo instalado nos nossos olhares. Sabíamos tanto e tão pouco. Não sabíamos das nossas mãos. Sabíamos da espuma iluminada na areia, e dos pedaços de gente que nos tinham castrado. Sabíamos das exigências e da falta de liberdade. Sabíamos da censura. Sabíamos da dor árdua da ressaca da manhã seguinte. Sabíamos dos nossos. Prezávamos os nossos. Ali permanecemos encantados até a manhã se espreguiçar e romper aquecida. Bebemos café. Caminhamos pela praia e adormecemos pela manhã, na areia feita de grãos de esperança que engrossariam enquanto o sonho caminharia para a realidade. Acordámos adultos e passaram vinte anos de quimera. Suavemente embrutecidos transformaram-se em suavidade, enganos e anti-desistência.  

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