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O peito farto e os dedos esguios faziam-me lembrar uma estátua com quem me cruzava em pequeno no átrio da biblioteca. A pose. A pose era um misto na minha imaginação de algo angelical, com uma perversidade assustadoramente sexual. O ar angélico excitava-me, despertava em mim uma vontade de fazer mal por bem. Sentia-me perseguido pela imobilidade do seu olhar. Sentia que se olhasse para trás à minha passagem, apanharia em flagrante o seu olhar desprendido da sua face branca. Não tinha braços esculpidos. Terminavam onde se iniciavam. Nuns ombros elegantes. Sempre que pensava nela a via com braços no seu pedestal. Sabia daqueles caracóis de cabelos bem desenhados, esculpidos e brancos que brilhavam com o seu olhar. Sabia ser poeta. Intimidava-me o olhar dirigido a mim. Só a mim. Conhecia o seu conhecimento. Sabia de todas as vezes que saia à noite e me cruzava com ela. Vi-a dançar, com a sensualidade que só ela detinha. De manhã, lá estava no átrio com um sorriso melancólico e lânguido, como se fosse imóvel de vida. Mas eu sentia a vida, entendia-a. Até hoje não mais acreditei, que o que sai da pena de um poeta, do ponteiro de um escultor, do pincel de um pintor, da voz de um fado, dos acordes de uma pauta, jamais será algo imóvel ou estagnado. Será sempre e para sempre, vida eterna. Jamais morrerá. Assim são as sílabas inventadas da poetisa e aprendiz de feiticeira Lobato Faria. Mais do que a pose a descrição. A invenção de sílabas e a sensibilidade ao mundo perpetuará a sua obra como a tantos outros. Irá num alegre festim encontrar-se com Ary dos Santos, Sophya Melo Breyner, Eugénio Andrade, Mário Sá Carneiro, Luiz Pacheco e muitos mais que este País felizmente tem, em prol do que não tem.

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