Sair por aí
Incendiado um burburinho delinquente e malfeitor exaspero. Espero pela véspera de um fim-de-semana e da manhã que o antecede. Está quente o chão. Tão quente como as mãos que caiem nos meus braços. Nenhuns dos dedos são iguais. Tontaria minha, tudo depende do ângulo em que me olhar. Preciso muito mais de me olhar do que me olhem. Morreu o canteiro semeado de erva que não era de ninguém. Erva crescida por vontade própria, que sem ser obra de ninguém, enfeitava aquele triangulo de quintal. Morreu de madrugada pela geada. Morreu queimado de frio e orvalho.
Preciso de viajar. Estar fora. Desenjoar-me. Ouvir uma língua que não entenda. Pedir. Sentar e deixar-me estar no degrau escolhido, e observar. Pintar por dentro de invenções as minhas telas de palavras e emoções. Preciso de não me reconhecer, preciso de não me conhecer. Quero entender e desentendimento, fugir do reconhecimento.
Preciso que os azuis sejam céu e mar outra vez. Preciso que o pó se levante cedo com o sol. Sonho que as poças sejam de água e desenhadas. Preciso de ver carrosséis com cavalinhos de madeira nas praças públicas e as crianças desarvoradas em correrias alucinadas. Preciso de ver casas antigas de paredes grossas, rios e ribeiros, serras e amontoados de esperança ainda por arder. Não quero ver mais, florestas ardidas. Negras e cinzentas de cinza mais que verde giesta.
Quero encontrar os meus olhos. Os meus passos. As minhas sossegadas contrariedades, as poesias não lidas, não escritas, não encontradas, desarmonizadas, discordadas, presas por serem livres em regime ditatorial. Quero ouvir os poetas de intervenção feitos músicos. Quero cheirar o som dos acordes das poesias ressuscitadas de esperança. E quero sair por aí sem sequer ter que sair por aí.
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