Simplesmente
Acabado o mar visual junta-se a serra. Mais à frente um farol divide o mar de agitado, para menos agitado, réplica da emoção equacional que grita no meu peito. Aquela serra circulada por caminhos não principais, faz-me sentir que existe vida por ali não visível. É demasiado perfeita e com clima próprio. Há qualquer coisa física / espacial, destinada à iluminação dos amantes. A vegetação, as pedras, as construções, o mar do outro lado... e nós. Nós ali emudecidos, vidrados de uma natureza forte, de um cheiro denso e cruel, de um frio que desce pelas geadas, de uma embrutecida e animalesca natureza desejada. As barreiras fogem íngremes, de uma cidade plantada no fundo. No sopé vivem casas pequeninas e coloridas que vistas do paraíso são translúcidas.
Translúcidas, como a água que geme rebentada das encostas cultivadas de árvores prendidas com raízes:
- Sou eu prendido, gemendo água em gotas transpiradas de um corpo em descoberta, descoberto, e sem presságio final.
- Sou eu, translúcido não escondendo a vontade em tremura de voz e mãos.
- Sou eu sentindo-me sopé mais que montanha.
- Sou raiz.
- Sou a harmonia do vento trazido pelo mar do Guincho e os caminhos não circulados da serra de Sintra.
- Sou a emoção feita palavra que o silêncio me provoca.
- Sou mil pensamentos transpirando calmaria.
- Sou os meus olhos pousados ali sem sentir.
- Sou regresso antes de partida.
- Sou a minha companhia e utopia.
- Sou eu sabendo-me fazer alegria.
Esta confortabilidade é o meu crescimento relacional comigo próprio. Antes de alguém preciso de ser eu, sossegado e em paz...
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