Cabo de Mundo
Ao princípio as cores baças e desbotadas estendiam-se pelo mato e assim esgotavam e transformavam a inferioridade das horas diárias em que o sol estava acordado e espreguiçado. Cada vez se elevava mais tarde e se recolhia mais cedo. Naquele pedaço de rocha azul esbatido e espumado pelo mar a perder de vista. O cabo Sardão é um bocado meu, imutável. As gaivotas felizes arrulham em cumprimento, enquanto eu sentado a ouvir Zeca, escrevo para ti sem saber se algum dia te enviarei estas palavras suadas de um sol que me queima a alma, mais que o corpo fervente. Construo aqui um quarto com lareira, uma cozinha e uma casa de banho. Suficiente a minha desmedida ambição de felicidade. Pintarei as paredes de paz e assentarei os vidros das janelas aos quadrados de uma paisagem que não se gastará. No pequeno quintal as alfaces serão o depósito do orvalho. As manhãs chilreadas pelo som do púcaro de café aquecido nos movimentos ainda lentos do acordar, cheiram a ti. O sorriso aformoseado do teu caminhar, os gestos balançados do teu corpo delgado enfeitado de um cabelo revolto avermelhado, os raios de sol que saiem das tuas palavras. Tu sentada de olhar pendurado no infinito onde não moro, constroem o meu porto abarcado de perfumes silvestres de madrugada leda e calma. O céu é da cor do mar e o trigo da cor do sol. A terra da cor da rocha e o nevoeiro da cor do relento. A cidade perdeu a cor e cheira a humanidade, não tem sons de tanto ruído encerrar. As pessoas não se vêem ou escutam. Aqui jaz a vida viva. Existe cor e cheiro. Existe tempo e espaço. A matemática é diversão e a filosofia meditação. Aqui o tempo usa-se e não se gasta. Aqui o mar é o meu sangue e o céu o meu livro. Aqui a minha guitarra tem por onde expandir os seus acordes livremente pelas estrelas salpicadas de universo. Aqui as minhas mãos têm criação. Aqui eu existo.
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