Depois do espectaculo ... regressado

Cidade claustrofobica. Alucino e vejo os prédios dançarem como se a cidade fosse uma pista de um salão de dança. As pessoas passeiam-se vidradas sem reparar que existem. Cheira a fumo. Os carros parecem-me bólides na imobilidade da cidade. Tudo liquidado numa velocidade estonteante. O horizonte não existe. A noite cai. A cidade fica com uma emancipada normalidade. As pessoas ressuscitam e tornam-se expressão. A noite tem esse encanto mesmo na cidade. Encanta-se de vida. A ponte acende-se. Iluminada fica reparável aos meus olhos, bem como os barcos que povoam o rio. Os bares berram embriagados e roucos. O fumo excitado salta ao som de uma batida que não sendo a minha já o foi. Reconheço-as. Os corpos ausentam-se da alma numa volátil sedução. Bandos de gaiatos escrevem pergaminhos na relva onde se rebolam. A cidade é apertada para mim. Salpicam monumentos e espectáculos que é o que me faz habitá-la. Adoro a estrada que me traz, de um regresso atempado e premeditado. A cidade agrada-me. Agrada-me usá-la e voltar ao sítio onde a linha do horizonte não quebra a lua cheia. Foi o meu regresso de alma cheia, da cidade claustrofobica e ausente, cheia de gente e solidão, invisível e poluída, capital da nação. Tudo tem o seu tempo. O meu por agora é este.

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