É como um filho :-)
Giestas perfumadas barram-me o caminho. Rastejo e passo para o outro lado. Arranho-me de querer. Desta força faço a luta que travo no meu caminho. Mais lutador que guerreiro, ergo-me de cada vez que rastejo. As papoilas lilases acariciam-me a face e retrocedem no meu tempo. Ao longe o trigo baila com o vento. Vejo o pó da terra levantado pelo um arado que trata a lezíria. As cegonhas altaneiras observam-me. Sinto-me pequeno mas robusto. Tenho uma planície minha, só e sem companhia. O céu escurece, leio nele uma mensagem. Oiço as palavras balbucionadas pelo vento que gravo e penso em escrever. O veneno da solidão quando acaba transforma-se em força e lucidez. Não escrevo multidões cheias de nada, escrevo muito mais solidões cheias de tudo. Uma mão cheia de tudo é nada e uma cheia de nada é farta. A urbe mata-me. O campo renasce-me. Lugares comuns empobrecem-me, os não triviais enriquecem-me. No fundo as escolhas são actos não pensados, são muito mais caminhados que decididos. Não existe força nas escolhas, as escolhas são feitas de intuição, que se comprovam ou não, por tentativa e erro. Aceito o erro como tentativa. Sou feliz por errar. Existem mil deuses. A liberdade de interagir com as coincidências torna-me crente nalguns dias. Os factos são feitos de actos, a inércia é pobreza e miserabilidade. Sou lutador mais que guerreiro. Sou arauto da paz salpicado pela chuva e pelas madrugadas. O meu trabalho germina e cresce, é como um filho, em Outubro nascerá.
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