Um olhar sobre o tempo
Ruge a tempestade em pré-aviso luminosa riscando o céu de relâmpagos. Espectáculo soberbo visto do alto do monte da lua cheia. Não se julgam palavras que descrevem a natureza. A natureza somos nós fazendo conjunto com os elementos constituintes. O cheiro agreste dos silvados associam-se ao festim. Do outro lado invisível aos olhos e sensibilidade ausente, seres despreocupados de ser, preocupam-se com o sentir dos outros, alheando-se em bonançosas teorias acerca do conhecimento do desconhecimento humano. Uma idosa curvada e respeitosa benze-se e diz baixinho uma oração a Santa Barbara. Tem nas rugas o conhecimento dos mares e das marés que o envelhecimento lhe deu. O xaile que a envolve respira o conforto da segurança e o entendimento do cantar madrugador dos pássaros e dos voos picados ao entardecer. Na minha porta decorada com um número que me dá uma morada, espreito o burburinho dos homens saídos da jorna bebericando conversas animadas. No largo empredado de musgo entre as pedras, alguns rapazes pontapeiam uma bola antiga e já rota. Num banco de sombra de uma árvore, as meninas conversam sobre o ser “grande”. O relógio da torre compassado de ponteiros de ferro ferrugento, na hora certa badala o tempo com que se mede a existência. Fá-lo de trinta em trinta minutos. Cheira a roupa estendida e filhoses. Hoje foi dia de medico. No portal da minha porta numerada que me confere um sítio, espero ardentemente que o Sr. Doutor tenha receitado mezinhas de ervas para chá, para a estupidez dos preocupados em sentir o sentir dos outros. Cada vez que não me olho obrigo a olhar-me para os outros, gastando o tempo que me é oferecido apenas uma vez. Irrepetível.
Concedei-me Deus meu sabedoria, para usar o tempo da melhor maneira que a minha inteligência permitir, mais que o meu coração.
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