As faces na ausência
Transfiguram-se as faces na ausência. Por vezes quero recordar-me de expressões. Faço força, muita força e não consigo de um forma nítida recordar-me. Recordo as sílabas, os cheiros, os lugares, as lágrimas e os sorrisos, o toque, a sabedoria, imagens enevoadas, mas não vislumbro a expressão. Não recordo a cara da minha avó Deolinda ou Júlia.
A ausência deixa-me uma vontade de estar. Esta ausência.
Existem ausências aliviantes. Aquelas em que eu penso: “olha que sorte a minha”. Existem pessoas que deixei de conhecer. Provavelmente porque nunca as conheci. Normalmente são as que eu mais investi e sinalizei. Essa ausência tornou-se normalidade e mais tarde paz. Não passo “cartucho”, nem quero saber. Quem vai vai, quem está está. Cada qual na sua, sem dramas.
A ausência é um mar com vagas enormes de saudade. Isto quando se conheceu quem existiu, e existe quem se conheceu. Esta ausência não muda o que quer que seja. Se se conheceu, sempre se reconhecerá. Se se gostou, sempre se desejará. O reencontro das almas far-se-á, nem que seja na saudade da existência da ausência. O voo mesmo que distante é junto e pleno. É um voo de bem-querer, bonançoso e presente. É alegria por se saber bem, tristeza por não estar presente na ajuda, felicidade por partilhar um “olá tudo bem, estou aqui e pensei em ti, apesar de não nos vermos há uns tempos estamos juntos, é grande”. Enorme esta ausência saudada.
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