Intervalo

Entra pela janela o cheiro a pinheiro que chega ao primeiro andar da sala onde me encontro. Este silêncio é dos bons, penso eu! Dá-me a paz da distância, do burburinho, do caminho, que até aqui me trouxe. Oiço alguns latidos ao longe. Dependurando nestes pinheiros mansos existem flores amarelas. O vento corta o silêncio de quando em vez. O monte iluminado e cintilante ao longe, corta a cidade. Não me apetece daqui sair. Sinto pertença crescer no meu peito, o espírito viajante sub eleva-se. Acordo, sonho e adormeço. Piso um chão desconhecido a que chamo erudição. Uma sensação de dejá-vu inunda-me. Sei que existe um rio. Um rio farto e sedoso, lindo, lilás de cor e verde de esperança, vermelho de raiva do direito que tem em chegar à foz. Anormalmente sinto falta da companhia que em lua crescente, mais tarde farta, me visitará mesmo antes de eu a visitar. Imagino um corpo partilhado que me seduz e convida a uma dança. Uma musica feita de tambores arritmados e presentes, quentes e fortes, compassados e certos. Imagino os meus passos fugazes e leves ao som crente do mistério de ser. Ser nobre, soberbo e dançante, singular e indivisível. Imagino este campo aberto em mim, de coração mostrado e exposto, sem medo que o meu quociente emocional seja desventrado ou ameaçado. Revejo os teus olhos presos e soltos. As tuas mãos conversando. O teu andar ornamentado. O teu sorriso cravado e deliberado. A minha ausência. Isto sentido no breve intervalo de uma aula, entre o burburinho escutado abri um novo ficheiro. Aí estão eles mais a saudade.


 


A saudade afinal é uma trança enfeitada, é um “lago onde espelha a pessoa ausente”...

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