Não sendo o sonho fui a realidade
A pronúncia quente e aconchegante das palavras do ventre materno no Inverno saudoso da partida desta tua vida minha mãe, habita em mim um real sentir que julguei não existir. Antecipo, antevejo e pressinto. Ver-te assim curvada de um frio preto de tão negro que te habita a alma aguardando os dias que a morte premeia com uns restos de vida, emudece-me, paralisa-me e colhe-me. Os gatos no quintal desaparecem com miares dengosos e mórbidos de finados. Ver-te de encontro às portas na espera da voz que reconhece quem a visita numa cegueira definitiva gela-me e enraivece-me. Já não oiço a tua gargalhada e o velho rádio roufenho já não toca. As flores perderam a cor e os canteiros estão a murchar. Ainda tenho coisas para te dizer mesmo que não as ouças. Provavelmente assuntos desinteressantes e que te desassossegam. Assuntos que não te alimentam. Três ou quatro palavras são suficientes, fartas e parcas, e abarcam o que tenho para te confiar. Desço a rua em direcção à baixa, em direcção ao rio pisando as folhas estaladiças do início do Outono. Tenho um destino que não me o traçaste. Irei cumpri-lo, mesmo crente que o destino não existe e a sorte dá muito trabalho. Não sendo o teu sonho fui a tua realidade.
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