Poeta castrado não!

Penso e leio Ary dos Santos desde sempre. Sei que nunca terá o reconhecimento merecido para além de um nome de um largo escondido de Alfama. Ele também nao se importa nada com isso. Sei que de excessos se diferenciou e diferenciou-se pela enormissima obra deixada. Deixada escrita e prima. Sei que nao colaborou e nao era bem comportado. Sei que hoje vivo e terreno porque morto em mim nao está, jamais seria considerado, tao perto estamos do outro tempo. Tempo de campos cultivados de fome. Das barrigas alentejanas de fartura latinfundiaria da mão explorada. Da saudade de matar por aí Catarinas não caladas. Das touradas snobes de ferros espetadas no peito. Hoje especialmente por ser hoje. Pela ilusão do conhecimento ser uma desconhecida desilusão, deixo um retrato meu...e os meus olhos molhados, porque sinto. Obrigado Jose Carlos por  me ensinares "Poeta castrado não !"


  


Poeta castrado não!

 Serei tudo o que disserem 
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


 


 

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