Quem te quebrou o encanto nunca te amou

Cheira a flores de rosas no meu quintal. É Maio. As noites têm o silêncio dos amantes. Escondem-se almas voantes na imensidão de vida. Perdura a vontade de fazer do mar companheiro e de deixar completa a obra que é a vida. As crianças têm o encanto da inocência. Já crescido aceito o desencanto da vida. O desencanto da desistência. Aceito a loucura que me tolda. Os sonhos que vou sonhado, o fazer amor em vez de sexo. Os corpos entendidos mesmo usando a mesma linguagem são fugazes e despropositados. Os corpos só se unificam se alma for una. Esse é o privilégio que a vida nos oferece. Poucas vezes sobrevém e as palavras são desnecessárias, não importam, nem se importam. A alma expressa-se não se pronuncia. Expressamo-nos pelo que transparecemos mais do que pelo que dizemos. Transparecemos pelo que exalamos. Cheira a lençóis lavados e frescos no meu peito, de cada vez que acordo do único sonho que tenho. Aos poucos vou concretizando. Concretizar é agradecer a existência. Todos os dias, me abandono e recolho. Todas as noites, entendo a ruptura como oportunidade. Mudo sem estratégia pensada, amadureço com as estações, sem me aperceber de que o que preciso não se procura, encontra-se. Tenho como o Pessoa pedras no meu caminho, mas não construirei um castelo, construirei uma gruta e um passeio empedrado de seixos, da nascente do rio que corre desalvoraçado em mim. Semearei um relvado com a lua ao fundo, para que me lembre da luz que me ilumina e não me cega. A lua tem a cor da minha alma. Quem me quebrou o encanto nunca me amou.

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