1º Maio no rio

Quando o tempo esvoaçado não tem medição ou partitura. Quando anoitece e amanhece e não me importa se o rio mesmo ali debruçado corre de sul para norte, ou de norte para sul. O rio a mim sempre me pareceu correr ao contrário. Quando ali em frente os gaiatos andam nos baloiços que tem uma idade recomendada e me interdita a ser criança novamente. Quando aniquila a criança que há em mim. Quando o arrulho dos patos me chama da ponte e me apetece dar a mão e vaguear no jardim sem direcção. Quando a musica com duas décadas me sabe a hoje, fico como se não soubesse de mim.


 


Perco-me na loucura da insensatez e apetece-me ser cada vez mais sensato, porque a minha insensatez é a parte sensata que o meu corpo carrega a que chamo alma. Gosto de cadeiras de ferro com assentos de madeira e braços antigos e desenhados. O dia clareia antes de nascer como um bebé se excita antes de dar os primeiros passos, para os braços agachados que o esperam.


 


O morango joga bem com o chocolate. Acho-os a ambos sensuais. Imagino o vermelho e o castanho derretido. O agro e o doce embevecido e os olhos cúmplices a sorrirem. As palavras soltam-se-me sem as ordenar ou comandar. Mas não solto as que me apeteciam soltar. Solto o olhar empático e os sonhos alheados das palavras. Arrepia-se-me a pele já a madrugada vai alta e o dia já existe a sudoeste. A serra espera-me. Depois de a dobrar adormeço já o sol me cumprimentou que um:


 


“... Bom dia companheiro, hoje é o 1º de Maio dia do trabalhador, usufrui porque está em vias de extinção segundo consta lá por Caxias....“  

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