Inginheiro
A música forte e densa mal se ouve de tantos decibéis derivar. Verão, calor a sudoeste do Alentejo. Terra quente empoeirada e escura. Uma brisa corre desventrada dos teus olhos. Tens um vestido de ganga com uns botões que te descerro com o olhar. Os teus cabelos são a continuação do teu ser, desgrenhados ao vento, soltam-se em caracóis vermelhos. Centenas de pessoas arrastam um corpo alienado pelo álcool e umas porcarias que fumam de cheiro adocicado. Sempre achei que aquele fumo tem ritmo e um cheiro quente a Africa.
Não tarda é Julho. Os Julhos tornaram-se meses anormalmente saudosos e felizes. Sou abençoado. Escrevo com alma o que sinto, penso, observo, invento, experimento e sonho. Leio mais que um livro a cada quinze dias. Toco mais do que vinte horas por mês. Jogo futebol com amigos. Tenho dois trabalhos e um deles adoro-o. Tenho um trabalho só meu como objectivo e meta. Ando de mota por sítios incalculáveis e verdes com riachos pelo meio. Conheço-me bem e não menosprezo o conhecimento do ser humano. Tenho pais idosos e doentes mas vivos. Uma filha saudável e presente. Tenho energia. Dou-me bem com a minha solidão e necessito dela. Adoro a luz da minha casa, o cheiro, o pó depositado nos livros e o cotão dos cantos do corredor. Gosto de passar a ferro quando me apetece, lavar, estender e apanhar roupa. Gosto de sexo e de fumar à varanda. Gosto de ver a lua a crescer e minguar. Gosto do meu património emocional, e do auto – patrocínio intelectual. Gosto de arroz de grelhos, peixe frito e arroz de pato. E gosto de ir à serra perder o olhar no alto de Santa Marta.
Que se dane o Inginheiro Sócrates que é só protocolo ... e o aumento do IVA….
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