Lágrimas sorridas

Os homens de tez queimada pelo sol, de mãos sábias e rudes da vida abraçada de mar, das noites embriagadas das vagas e pescado, descansam com as vestes de flanela coloridas, no areal a perder de vista numa praia escarpada e branca. Serenamente olham o mar que não os farta, que amam e respeitam. Fumam e conversam sabedoria e vêem o voar das gaivotas anunciando o tempo que prevêem. Têm um ar distinto, severo e meigo, feito de distância e proximidade. Apenas o seu ar me faz sentir pequeno e ignorante. Conheci um pescador, o Ricardo, que me fez sentir pequeno perante tamanha sapiência e bom senso. Sinto-o como se fosse o prolongamento do mar. E como eu gosto do mar e lhe reconheço energia, paz e força, movimento e cor, alegria e tristeza. Sei, enterradas na areia da praia, lágrimas de sofrimento, de perca e de alegria. Sei existir vida nos cúmplices olhares dos amigos de toda a vida, comemorações conjuntas de despedidas e chegadas. Sei existirem regras e códigos jamais impensados de serem quebradas. Existe pacto, não há dúvidas de conceitos, do que foi, é e será. Os barcos virados a norte são baptizados como os seus filhos. São um bom pronuncio. São encomendados a Santa Rita de Cácia que os vele e guarde nas noites das vagas. Místico este areal onde o silencio é cheio de tudo, e as palavras cheias de nada. Salgado de sal, lágrimas sorridas … e mar.

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