Sofazando IV

O tempo em forma de hospício e perjuro é pesado nos meus ombros gastos e doridos. As minhas mãos rudes mas fartas de carícias acumuladas gritam amor. O tempo faz com que o amor entendível e sarcástico se esconda enlaçado, como nós de gravata que me desconfortam e sacrificam.


 


Não existirá nenhum poema que me deprima ou alegre, tal como as palavras sublimadas e distantes que me ferem a alma, tanto como a boca de quem as vocifera. Redondo este vocábulo incandescente apaga-se ao nascer e falece ao ser sepultado na rocha cravada e sobranceira ao mar. As cinzas perpetuam a existência, o pensamento, as questões permanentes mais que as existenciais e as respostas adiadas e esperançosas de um tempo inexistente e crasso de vida.


 


A ambivalência é uma oportuna e avançada forma de ser, é uma dúbia forma de estar encarada pela solidão, presença e ilusão. A soma das partes nem sempre é o somatório de um todo ou um todo o divisível das partes.


 


Dentro do meu peito existe como na babilónia um jardim suspenso, um mar salgado, um deserto por habitar, um nevoeiro que me esconde, e um poema que me mostra. Dentro de mim existe vida. Ser-se, é tão mais forte do que o adiamento feito de medo e cobardia do desconhecido. Enfrento-me. Carrego-me. Por isso os meus ombros negros, gastos e doridos, elevam-se ao caminhar.


 


O meu coração está seco de dor, habitou-se, é agora uma fonte de vida. Uma fonte que me alimenta. Uma nascente de certeza de conseguir carregar-me, levar-me e elevar-me.


 


A luz fica acesa não precisam bater, é só entrar.

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