ADN

Vira-se-me o barquinho cheio se emoções num mar de lua forte. Vagas que não me deixam adormecer saboreiam a minha insónia. A água que cai da chuva junta-se à água que se deposita nas poças. A estrada que corta ao meio a serra, esconde o mistério que faço por entender. No alto enfeitam-se agora pás grandes de moinhos que fazem a luz brilhar no sopé da montanha, em casas que deitam fumo com cheira a família. No meio do temporal emocional habito-as sem lhes pertencer. Há dias atrasado ouvi sons de animais nas moitas que se contorciam de espasmos.


 


Existem em mim sim pensei, não sempre, mas existem. Existe um cadeado com um código que desconheço. Existe um gnomo, um duende e um anjo. Um genoma indecifrável, um ADN por descodificar. Faço mais do que falo. Faço mais, do que digo fazer.


 


Cansado espreito-me lá à frente e chamo-me. Afago-me e retempero as forças que gasto para não sentir, mais do que pensar. A planície descansa plena.


 


Alturas há, em que vejo o castanho da terra de laço e fraque a dirigir uma orquestra, onde os pinheiros são contrabaixos, os sobreiros saxofones e as giestas percussões, vejo as cegonhas num esplêndido voo picado dançarem com as cegonhas que planam calmamente mais no alto. Imagino. São namorados. À noite irão dormir abraçados e enumerar os segredos do dia. Quando a orquestra se calar. Mas a orquestra é a natureza e não se calará nunca, calar-me-ei eu em primeiro.


 


Ando de volta do Empreendedorismo e apetece-me escrever, escrever, escrever, sem consultar mais nada nem ninguém. Já tenho opinião que baste e dados que me desbastem. Não quero saber mais de Inovação, nem do Social.


 


Quero mesmo é afogar-me no mar e sepultar-me debaixo das ondas que me embalam.


 


Quero ser mar e neblina condensada. Quero ser. Finalmente ser.

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