Fado

Neste azul bordado em mim não resta nada....


 


Perguntaste-me se gostava de fado...


Respondi-te:


- O fado é bonito. É bonito por ser complexamente desproporcional à simplicidade do que resta luso nesta nação. O fado tem na morte a vida. O fado tem gestos, sabores e magia. Tem uma vontade terrena de algemar os amantes. Tem solidão e lágrimas de esquecimento. Tem Portugal-idade (leia-se portugalidade) e esperança. Tem desenho e projecção de imagem. Tem estatuto, é clássico e contemporâneo. Gemem os olhos fechados e é aberto e orgasmico.


 


Disseste-me, como assim:


Respondi-te com calma depois de um respirar aprofundado:


- O fado tem fascismo e liberdade. O fado é bem e é do povo. O fado nada tendo, é farto. O fado é arte. O fado junta nas palavras, lágrimas e sorrisos, paixão e descarte, amor e perda. O fado tem a métrica da matemática, o encanto da poesia, e a questão filosófica de um povo. O fado é menor por assim serem os seus acordes, é maior porque se eleva, é dominante e diminuto, é sustenido e bemol.


 


Olhei-te com os olhos rasos de água e continuei:


- O fado sou eu, és tu, é a história. É histórias e promessas. É o desencanto da desilusão, e a proeminência do futuro que nos convida. O fado tem mar, descoberta, viagem, paisagem e demoníacas sensações de um Deus estafado mas crente. O fado tem crianças e idosos. Tem cumplicidade. O fado tem revolução e liberdade.


 


Revolução? Apregoaste!


Não te olhei e continuei ouvindo-te:


- Tem excertos. E tem Manuel Alegre, Alexandre O´ Neill, Zeca, Amália, Camané e outros brilhantes. O fado tem Africa e as Américas. O Fado tem mil anos. O fado terá eternidade nos seus versos. O fado não será dançado pelo sócrates e pelo coelho. Esses dançaram o tango da traição.


 


No seu chorado cantar, na sua alegria triunfal, o fado será o País nos teus versos.   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Blogger Cardílium

O pai natal foi um filho da puta

Prestianni - viva todas as cores !