O momento
Ventre azul como o firmamento desconexo. Raios da cor de laranja formam nuvens como gomos. De presença mistura-se a natureza. Adivinha-se pela cor cinza iluminada, a chuva que seca a terra e refresca de paixão a alma. O vento leva-me desconhecido a um sítio ermo. Assim, sempre que possa quero ir, ser e estar. Pesa-me o pensar que não me deixa adormecer. O pensamento faz-me andar rápido entre a floresta feita de árvores. A noite está a caminho e de encontro a mim. Espero-a sentado numa pedra de musgo e entretenho-me a descascar da pedra fria o verde quente. Nas minhas unhas ficam pedaços de terra que limpo com a caruma adormecida no chão. Deslocam-se na terra movimentos que escuto sem os ver. Numa insónia de ausência, acordo-me depois de me embalar. Tantas vezes cruel, tantas vezes sujo, tantas vezes adormecido em braços alheios, em camas envenenadas, em festins de silêncio, em silêncios atraiçoados, em lugares abstractos, sem nome, sem mim mesmo feito de presença, sem sono, nem verdade, nem vontade. Vou banhar-me no rio gélido e purgar-me desta presença envenenada de solidão. Vou dar uma volta e regressar ao abraço confortável por descobrir. O momento presente subtrai-se ao próximo, imparável.
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