Banquete
Deslocou-se o olhar que me afagou. Reconstruído pouso as minhas mãos nos joelhos e sento-me no jardim. No banco verde de ripas vejo as pessoas passar. Olho cada passada como se fossem minhas e engendro o caminho que fazem. Tenho fome. Fazer uma refeição só para mim é um acto de maturidade, é como se não fizesse sentido, pensar, preparar, ferver com amor, pôr talher e prato, e degustar-me. É como se o simples facto de me nutrir se tornasse num acto reconstrutivo de destruição criativa. Fazer para voltar a fazer, sempre igual e rotineiro, apenas uma necessidade básica à naturalidade da sobrevivência humana. É este conceito de necessidade básica que me ajuda a compreender o entendimento de necessidade básica.
Verifico que não divido as minhas necessidades fisiológicas, higiénicas, de reconhecimento e segurança com ninguém, então porque hei-de eu achar que a alimentação se diferencia das outras?
Concluo que é cultural, que alimentar-me não é mais que uma necessidade básica, porque cresci a achar que não o era. Mais uma inverdade com que cresci. Mereço sim e faz sentido cada banquete que sozinho faço. Um banquete não é igualmente o conceito com que eu cresci. Os meus banquetes foram deslocados do olhar que me afagou. Um banquete é conversas partilhadas, festins de palavras, olhares doces, corpos balançados, sorrisos cúmplices de afagos trocados em dedos entrelaçados.
Comentários
Postar um comentário