Desigual

Injusto este mundo antagónico. As mulheres olham de esguelha e muitas vezes de frente. O sexo mistura-se com a religião e as palavras orientadas pelo caminho sedução. Cristo e anticristo são próximos e a verdade só existe e é valorizada, porque a mentira é proeminente. Quem jamais deveria mentir não sabe o que é verdade. A verdade são sete letras como os pecados capitais.


 


O pecado é transgressão. É violação se outros seres se encarcerarem. A prisão é a liberdade que se dá a quem já não aguenta viver. Viver implica ser livre numa prisão. Prisões não são grades e fechaduras barulhentas ao trancar. Prisão é a mentira vivida como verdade. São discursos bonançosos, daqueles que ao ler penso


 


- “ Quem te ler não te leva preso”, e logo a seguir penso:


 


- “ Melhor levasse, seria em nome da liberdade própria e a libertação de quem se prende sem decidir”.


 


Liberdade é abrir mão e sofrer porque se acredita no renascimento da alma. O espírito sôfrego do ego é mentiroso, a transformação da mentira cognomina-se de verdade. São estes conceitos sentidos de um sem sentido, que me vou despertando e entendendo a natureza humana. A proximidade do desencontro e o desencontro da adjacência.


 


Basta de água fria e benta. De orações e caminhos, de vales, serras e planícies, e histórias por entender mais do que encantar. Chega de falar do que não se sabe. Não fala de fome quem nunca a sentiu. De liberdade quem nunca foi escravizado. De democracia quem sempre esteve do outro lado da barricada. De trabalhadores quem sempre foi patrão. De demência quem sempre foi sane. De homens e não separe a imagem do próprio pai. De mares e oceanos, da Europa e da América. Do futuro e do passado, quando na verdade o que existe é o presente. Chega de demagogia. Chega, chega, chega. Há dias em que ainda sinto, não me estraguem o sonho de sentir. Sonhar eleva-me, vou mas é ouvir o José Mário Branco ele entende-me, não adianta querer ser entendido. Quando se é, sente-se.


Três cafés depois e um dedal de conversa, mais benévolo e transpirado, montei a burra e fui verde fora pelo pinhal do paul. O cheiro forte lembrou-me uma quinta-feira da ascensão, quarenta dias depois do domingo de Páscoa, onde fiz amor entre as ervas altas. Não sei se gerei uma filha ali. Sei que a gerei ao ar livre.


 


O rio, maior à frente cobre o seixo polido onde os peixes habitam. Os homens de chapéu de aba larga e mãos de terra, têm na cor da tez o encanto de um olhar profundo e desinteressado. Misturam-se os pescadores avieiros que trocaram o mar duro e invernoso, pela frieza do rio onde alimentam os seus filhos. A lezíria parada tem um movimento esplendoroso. As mulheres cantam e trabalham, enquanto pelo mesmo motivo os homens bebem para suportar o senhor feudal, que sentado no alto do seu olhar vigiante e intimidador, massacra e explora, a morte como a Catarina.


 


Os filhos de uns e de outros tem infâncias iguais e destinos diferentes, e sem que ninguém saiba disso pelo vislumbre, todos o prevêem. As avós, mulheres viúvas de negro, carregam o gado e cuidam da lenha, que o Inverno embora ainda seja verão, não tarda ser avistado. Virá numa madrugada com o frio, e embora ainda venha em terras de França, ao raiar da manhã estará na Azinhaga como Saramago previu.

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