Estilhaços

Estilhaços de olhares vagueiam na rua que desce quente em direcção à praia que já sossegada descansa. Já passa das onze da noite. Do mar já só se vê a espuma e sente o sal marejar nos meus olhos. Sento-me em frente a ele e reinvento-me. Deito-me na areia e olho o céu que me dá a visibilidade estrelada de que o mundo é redondo. Enrolo-me em posição fetal e aconchego-me de pensamentos positivos e viagens por realizar. Aquele pedaço moreno de mar meu nunca me falha.


 


Só tenho sono nas horas em que estou acordado. Nas horas em que posso dormir fico acordado. A sesta já me faz sentido. Dormir a sesta é fazer de um dia, dois. A morte é irmã do sono. Morre-se de ideias e ideais. Morre-se de amor e solidão. Morre-se apenas porque se está vivo. Posso entender a vida como a opressão da alma e o maléfico querer material a prisão do espírito.


 


Nasci sem roupa porque me vestem no renascer da morte?


 


Quero ser cremado nu, tal como nasci. Quero que numa noite de luar me dediquem palavras sentidas, que falem de liberdade, alegria, igualdade, amor, mar, agua, coragem, alma, vida, paz, magoa, esperança, crença, cheiro, vento, nevoeiro, madrugada, nascimento e morte, mais que despedida.


 


O vento prometeu pegar e levar-me. O mar disse que me sossegasse que me embalaria e a lua anunciou o seu carinho. Das estrelas creio na sua luz e caminho, e do nevoeiro a protecção. Da madrugada para além da cova virá a boa nova. Quero o meu tempo a esfumar-se numa ampulheta de tempo feita de areia fina e branca, banhada pelo Índico do lado de lá do continente, abaixo do Bojador onde não existe pecado.

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