Aos retalhos de vida
Acordei e olhei para a janela que tinha dormido comigo aberta naquela água furtada alugada, onde eu sentia o passear das osgas e onde cresciam nas telhas ervas que secavam no verão. Entrou-me o cheiro a roupa lavada e seca que é diferente do cheiro de roupa por secar. Tinha ido da aldeia para a cidade e vivia no quarto de uma velha sábia e sabida senhora viúva há largos anos. A casa estava cheia de homens. Bem sei que eram hóspedes, mas não deixavam de ser homens e com homens ela entendia-se bem, para além de treinar a ausência do seu. Três estudantes e três tropas, dois cabos e um graduado, mais alguns viajantes que ficavam de passagem, embora certinhos eram passageiros. Cheirava a creolina ás terças-feiras, dia de desinfecção geral. Era certo o meu estômago dar duas voltas ao ranger de cada degrau de madeira envelhecida e estreito até ao corredor que me empurrava para o quarto. Roufenho um rádio na cozinha comum ditava as notícias. Era um rádio velho e com a gordura normal de se viver numa cozinha. As torneiras da casa de banho eram autênticas obras de arte em bronze. Recordo-as até hoje. Dava-me com o Hernâni, um velho meio louco, que tinha tido em jovem três mulheres ao Intendente que o sustentavam. Depois deixou-se disso e vendia relógios roubados e tabaco de contrabando. Ainda hoje tinha uns esquemas. O que me ligava a ele foi a sua passagem pelo Júlio de Matos ainda antes do 25 de Abril. Historia de miséria e encantamento que ele me contava. Falou-me do médico mais demente que ele. Das viagens alucinogénicas provocada pelos fármacos. Da enfermeira que se tornou sua companheira. Do regresso ao mundo e da sua incapacidade social. Dos filhos que sabia ter e nunca viu, da sua irmã que vê anualmente na sexta-feira de cinzas no cemitério do Alto de São João à Curraleira, junto à campa da sua mãe. Falou-me do rio Tejo e dos domingos de final de tarde no jardim da torre de Belém e das carteiras gamadas às portas de Santo Antão. Não me cansava o seu cansaço. Desfazia a barba cuidadosamente de manhã e cantarolava. Gostava dos Beatles e da Amália, do bairro alto e de Alfama. Um dia comentou comigo um crime de sangue que tinha executado e calculado friamente. Um homem que tinha usado a sua mulher e não tinha pago. Marcou-o, e, durante vinte sete noites ficou na esquina à espera do reencontro. Um dia ao vê-lo deixou-o subir com ela e no acto espetou-lhe uma faca nas costas e rasgou-o, desceu apressado e ficou aliviado. O Hernâni tinha vida e o mundo das avenidas.
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