Baile das arvores

Sentado num banco de pedra entre o cheiro das flores de Maio entretenho-me numa atitude masoquista de voyeurismo a observar a felicidade dos outros. Andava entretido com um livro que se chamava “Eu hei-de amar um a pedra” do Lobo Antunes. Revia-me na ausência de tempo. Era como se o passado continuasse a acontecer com o presente. Isento de tempo e carregado de um espaço combinado pelos amantes ali me encontrava eu, tentando fazer a ponte entre dois autores que admiro. Ele e o José Cardoso Pires. Era candidato interiormente a devorar literatura. Queria ter o dom de escrever, de fazer sentir o que sinto. Queria deformar o espelho. Não me quero ver assim naquele lado de mim. Diferente do que me via há vinte anos. Estou gordo e de cabelo prateado, até as minhas mãos engrossaram. Vale-me ainda a lembrança do que sinto e seguir uma linha de pensamento coerente com a merda que se passa à minha volta, descrita a cada telejornal.


 


Fazes-me falta amigo, cabrão do caraças que te casaste e ausentas-te. Faz-me falta ter-te e dividir os nossos pensamentos com o silêncio. Fazem-me falta estes dez anos atrás. Faz-me falta ouvir-te dizer que a minha cara fechada são só sorrisos. Faz-me falta ouvir-te dizer: “não vás ainda, fuma mais um cigarro”, era sensual essa tua expressão. Continuo sem beber e já não sei se fumo ou se os cigarros é que me fumam a mim. Sacana, partiste. A saudade continua em riste, em alta guarda, porque continuas sentado a meu lado a dizeres-me tudo o que me disseste e deixaste. Sei o que dirias em cada momento, é a ti que te recordo desvalorizando o valor das coisas, dos actos, dos livros, dos mendigos e das mulheres que víamos a passar aqui neste banco onde me continuo a sentar. A ti recordo-te valorizado. À dor ganha-se tolerância é bem verdade.


 


Lembras-te de falarmos dos carros feios, das ruas feias, das casas novas feias, cheias de traços de um novo-riquismo obsoleto. Olha o contrário disso. Vê. Ouve.


 


O vento fez uma saia de folhas caídas à volta do tronco de uma árvore. Transformou-a em bailarina. As outras árvores abraçaram-se e organizam um baile. O baile das arvores. Nunca visto. Imagina as árvores abraçadas a dançarem com umas saias de bailarina feitas de folhas vermelho ameixa. O jardim engalanado e uma orquestra a tocar no coreto. As árvores em passos elegantes e em vénia a esticarem a mão num convite sensual dirigido a outra árvore. As árvores a beijarem-se.


 


É nestas alturas que sei que me dirias “ a tua cabeça não pára, as coisas que tu te lembras” e sorrias como se nada importante se tivesse passado. Era assim quando me mostravas os teus poemas e os teus escritos. Eram de luz, é de luz, és luz, juntos somos luz.

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