E... como as conversas são como as cerejas...... olha perdi-me.

A década de setenta é sequência da de sessenta. Os homens começaram a vestir-se com cores alegres, as mulheres a fumar livremente, a usar mini-saia, o amor a ser livre, o rock and roll e as drogas numa proeminente e avassaladora invasão prenderam as mentes.


 


Enquanto isso descem avenida abaixo bandeiras cor de cravos. Soltam-se gritos de revolta e liberdade. As palavras ditas em prosa de tão coerente mensagem, soam a poesia. A poesia para mim é como a musica. Ouve-se em silêncio.


 


Ironia do destino. Surge no dicionário uma nova palavra. Retornado. Retornado segundo a explicação é aquele que regressa. É regressar. Recordo naquele tempo a qualidade de vida que os meus amigos regressados descreviam da terra donde vinham, onde no meu conhecimento só existia guerra e mato. Era assim que a entendia.


 


Ao lado da minha avó analfabeta lia os telegramas do meu primo Tó que estava na guerra. Não entendia. Como descreviam os regressados um País desenvolvido e belo, se não era isso que vinha escrito nas cartas e telegramas que eu lia e recebia da guerra. Não entendia, tinha onze anos e meio e não entendia. A minha mãe não me explicava porque era pecado, o meu pai explicava-me com o olhar. E eu entendia. Entendia aquele olhar moribundo de silêncio e prenhe de esperança.


 


Recordo a minha avó chorosa após cada leitura e trémula antes da mesma, na espera angustiada e cravada de lágrimas da pior noticia. Entendo hoje que cada carta por abrir significava morte e depois de aberta e lida significava vida, ou adiamento à morte. Havia qualquer coisa que eu afinal não entendia e não batia certo. Com o tempo entendi.


 


Haviam os que iam para morrer e os que iam para viver. A escolha não era aleatória. Era sequencial e mantinha um critério claro e simples. Ia-se em nome da pátria. Se se regressasse vinha-se em nome próprio. Havia sempre uma hipótese de fugir à guerra. O seminário. Se o escolhesse não era considerado desertor ou inimigo da Pátria. Pelo contrário, seria parte da moldagem cerebral e comum ao povo, a qual se distribuiria de cima de um altaneiro altar, numa homilia de corpo presente. Assistia-nos o direito a uma empregada, que seria a mãe dos nossos filhos.


 


Depois existiam os não vendidos ou rendidos. Os que desciam a avenida. Claro que me juntei aos das bandeiras vermelhas do proletariado, aos espoliados, aos que queriam mudar esta merda deste País, aos poetas, músicos e escritores. Estudei e trabalhei. Morri e ressuscitei. Antes renasci. Vivi a descoberta dos anos setenta, a música da década de oitenta. A paternidade na de noventa e, e fui respeitado no século e milénio seguinte. Foi este o meu caminho. Como tantos outros. Fi-lo.


 


Apertei-te a mão e fui empurrar-te no baloiço, depois de na relva deitados te ter falado da minha avó, e, e, como as conversas são como as cerejas...... olha perdi-me.

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