Eu para sul, ele sem norte
Um velho, forte, grande e largo carvalho abundava de sombra caída enquanto eu decidia se ia ao jogo. Aquela mesa de pedra já gasta das muitas horas jogadas de gerações não seria mais desgastada por mim. Aproxima-se o princípio que a morte me dará. Sendo crente não faz sentido ter medo da morte ou da sua existência. Sabedor da oferta que a vida me deu, jogo cartas não sabendo se a próxima cartada seja a final. Enquanto eu e os meus amigos jogamos quase em silêncio e falamos numa surdina já de despedida, os catraios saltam, dançam, e gritam estridente energia pelos poros. Como foi veloz e impetuosa esta distância marcada no tempo. Como se esfumaram estes dias num ápice.
Enquanto em surdina me rebenta um turbilhão de ideias, penso se hei-de ir ao destrunfo ou fazer bluff. São praias em que me movimento bem. Já ri quando me apetecia chorar, já parti quando me apetecia ficar. Já reagi quando somente me apetecia agir, já rejeitei quando me apetecia abraçar. Agora o tempo urge e já não adianta jogar. Vou jogar o dois de espadas porque a dama está seca, e o ás sinto-o no meu parceiro. Enquanto isso saltitam os petizes felizes ali mesmo à minha frente gritando estridentes, mãããeeee…. Irradiados de vida.
Por detrás vejo os carros todos arrumados e certos com o espaço todo organizado e bem aproveitado. Cada pedaço de terrado para arrumar vale uma dose. Todos os dias e já morto, o Patrício que é o indivíduo que arruma os carros no parque, calcorreia em sinalética o seu espaço. Está escuro por viver ao tempo e escurecido pela alma que o tempo faz passar por ele. Está magro e doente mas tem nos olhos a vida. Guardou as marcas visíveis e inteligentes que o fizeram dependente de questões. Descobriu na dose seguinte o alívio de não sentir mais, o ser o escolhido para viver outro dia igual a tantos e a todos os outros. Decidiu está decidido. Um dia baixou-se e apanhou uma nota de vinte escudos e deu-ma. Era minha e tinha o Santo António, tinha-me saltado da carteira sem que eu desse por isso. Disse-me que não me roubava por me saber vivo e tão morto quanto ele, e enquanto assim fosse, não me roubaria por um chuto, que era apenas mais uns minutos de um acordado adormecimento. Bebemos café juntos e paguei eu. Abraçamo-nos, e, fomos cada qual para o seu lado. Eu para sul e ele sem norte.
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