Flanela
A flanela grossa aos quadrados fortes embrulha-lhe a pele. Não entra o frio não entra o calor. Não faz a barba desde que lhe morreu a filha dentro do coração e foi avô. Cuida da neta como se fosse a filha, que a filha vadia ficou grávida de quinze anos. No areal a coser as redes sentado com os amigos de uma vida não se fala do assunto. A dor do Manuel Pexim é respeitada com o silêncio sobre o assunto. O Manuel nos momentos mais dolorosos não aguenta e sente o sabor do sal nos seus lábios entrar-lhe alma adentro em lágrimas teimadas de serem escondidas. Ao final do dia, a Rosa, a sua mulher junta-se-lhe com a neta Simone que não pára de encantar. O Manuel, imóvel e sem expressão no rosto, sorri pelos olhos fora. É o momento dele. Tem saudades da filha que já perdoou, mas não lhe consegue dizer.
Queria matar o homem ainda criança que abusou da sua menina, cortá-lo aos bocados e mandá-lo com a maré. Nunca falou com ninguém sobre esse mar de dor. É um homem e um homem só tem que fazer, o que tem que ser feito. Deitou a sua neta na sombra do barco que o levou ao mar noites somadas de anos a fio. Admira a sua luz e vê nela a sua menina. Tomou uma decisão.
Procurou a sua filha e devolveu-lhe o olhar. Depois de mais de três anos voltou a chamar-lhe pelo nome e sentou-a à sua mesa. Devolveu-lhe a sua cama. Abraçou-a. Choraram abraçados. O Manuel queria voltar a ter o mar e o sorriso do sol quando acordasse. Queria voltar a ter a Margarida no seu jardim.
Acordou na madrugada seguinte e foi pela praia fora chorar. Agora, já podia chorar. Tinha feito o que tinha que ser feito. Como um homem. Tal como a flanela que o guardava do frio e do calor, as suas lágrimas eram de tristeza transformada em alegria. Tinha ganho no abrir de mão. Podia sentir o frio da madrugada e a cacimba semear de vida o seu lar. O seu lar existia novamente. Sentia-se leve de perdão, e tinha aceite a tempestade e a maré vaza de solidão. Tinha o peito aberto de chagas saradas. Caminhava de chinelos na mão, enterrando cada passo na areia com força, e, em cada passada deixava enterrado um pensamento que não queria suportar. Passo após passo guardou um atrás de outro e não parou de caminhar. Nunca mais parou.
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