Flor não que ela é Rosa
...”O Ricardo tinha-se evadido de Caxias. Fala-se à boca pequena que tinha estado na casa do Padre, que este lhe tinha dado guarida algumas noites, antes que ele conseguisse com a ajuda do pessoal do partido sair do País. Na época a JOC – Juventude Operária Católica tinha ramificações com uma filosofia crescente e humanitária e ás escondidas dos enviados de deus à terra arranjavam uns “caldinhos”.
A mim tinha-me parecido ter o vislumbre do Ricardo numa noite semeada de sombra e frio. Tinha-lhe reconhecido o andar. O bafo frio da respiração. Tinha-lhe visto os olhos fumegantes de cansaço e a luz presente gritando em plenos pulmões, o caminho da liberdade. Escondido, ainda passou na mãe e beijou-a. Pediu-lhe que não chorasse e perdão. Agradeceu-lhe tudo, especialmente os livros que o tinham ensinado a não ter medo, nesse discernimento entre o certo e errado, o pecado e a absolvição. Deixou um segredo. Disse-lhe que o Sá, o canalizador, era bufo e o Joaquim do forno também. Eram da PIDE e tinham mandado engaveta-lo por pouco mais, do que ele saber os direitos que o ser humano encerra. Não podia ter sido mais que isso, porque mais que isso ele nunca fizera. Estava limpo de alma e liberto de traição no coração.
Na madrugada seguinte os cães e mais de vinte homens rebuscaram a igreja e casa da mãe do Ricardo. Nem o padre nem a mãe num só momento vacilaram com o olhar. As palavras foram nenhumas, e, todos num rosnar colectivo partiram por montes e vales, numa desenfreada caçada que seria tardia.
Há hora do sol a pique, o filho do Boticário entregava um bilhete à Rosa que dizia:
Atraquei.
Trouxe comigo já, o dia do regresso.
Sei que voltarei da mesma forma livre como parti,
Então já deformada a aldeia onde o pão cheira fumo, será nossa.
Dos que nos calamos para nos pouparmos,
Dos que aprendemos a beijar, com o olhar e o coração.
Voltarei com as palavras que jamais serão prescritas ou proibidas,
Voltarei sem ser pela noite calada,
Pelas sombras,
Pelo medo,
Pela ausência de mim.
Voltarei inteiro mãe,
Sobrevive até ao nosso próximo abraço.
Que a guerra terá tréguas e a terra será de quem a trabalha,
E o pão de quem o semeia,
E as palavras!
As palavras serão de todos nós,
Os que sem falarmos,
Presos ficamos nelas.
Vive mãe,
Vive até ao nosso próximo abraço,
Eu estou bem,
Estou com os amigos,
Não os da luta,
Estou com os arautos da paz,
Perseguidores convictos da igualdade.
Beijo-te mãe, a alma com o coração abraçado em ti...”
A Rosa confessou-se e partiu nessa noite. Foi em flor em busca de um cravo que numa madrugada de Abril se haveria de plantar....
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